Telejornalismo no Brasil | Anos 1980

Anos 1980 — A valorização do texto


A televisão conseguiu inverter o fluxo de informação, que nos anos 1950 a 1970 era oriundo do jornal e do rádio, e chegar primeiro aos fatos. 


Na década de 1980, vários programas marcaram uma nova etapa na história do telejornalismo brasileiro, como o Vox Populi, na TV Cultura, o Encontro com a Imprensa, na TV Bandeirantes, e o Diário Nacional, na TV Record. A TV Bandeirantes iniciou uma diversificada série de programas jornalísticos: Bastidores, Variety, ETC, Outras Palavras, Nova Mulher, Crítica e Autocrítica. 

No telejornalismo, a Manchete vinha com ideias novas e audaciosas. A começar pela cobertura do desfile das escolas de samba, que roubou preciosos pontos da audiência da Globo. A Manchete colocou o jornalismo no horário nobre, enquanto a Globo exibia suas telenovelas. O Jornal da Manchete impediu a hegemonia da Globo, priorizando o comentário e a análise dos fatos. (Rezende, 2000, pp. 117-122) 

Na Bandeirantes, Joelmir Beting tornou-se o primeiro âncora a atuar na televisão brasileira. Ficou quase seis anos à frente do Jornal da Bandeirantes e relembra:

A gente editava o jornal na hora, na marra. Era uma ancoragem cirúrgica, porque às vezes eu tinha dois minutos de vazio no jornal e precisava preenchê-lo ou precisava chamar uma notícia para o próximo bloco, e eles nem sabiam de fato qual seria a próxima notícia. A exigência de criatividade era um absurdo; eu perdia adrenalina toda noite [...] Aquilo era um “tampão”, ao vivo, com a nossa cara sob o risco de fazer ou dizer besteiras, como andou acontecendo. (Vieira, 1991 apud Rezende, 2000, p. 123)

Na década de 1980, a Band colocou no ar o Canal Livre, um dos programas mais representativos da história da televisão brasileira. O surgimento desse programa de entrevistas coincidiu com o processo de abertura política no país. Em plena ditadura, era uma tentativa de levar para a TV um jornalismo mais crítico, opinativo e independente.


Em 1983, entrou no ar o Show do Esporte, criado, apresentado e coordenado pelo locutor Luciano do Valle, e considerado o programa de televisão mais longo do mundo. Com o sucesso do programa, a emissora tornou-se o “canal do esporte” nos anos 1990.

Da experiência fracassada do SBT no telejornalismo surgiram os telejornais Cidade 4, 24 Horas, Noticentro, Últimas Notícias. A imagem de uma emissora incapaz de produzir um jornalismo de qualidade só começou a mudar em 1998, quando da contratação de três profissionais: Marcos Wilson e Luiz Fernando Emediato para a direção do departamento de jornalismo, e Boris Casoy, que assumiu a ancoragem do Telejornal Brasil. 

Consagrado no jornalismo impresso, onde chegou ao cargo de editor-chefe da Folha de S.Paulo, Casoy desenvolveu um jeito bem particular de apresentar o programa, que fugia do modelo norte-americano. Além de ler notícias e conduzir o telejornal, ele passou a fazer entrevistas e a emitir comentários pessoais sobre os fatos noticiados, o que levou muitos críticos e profissionais de outras emissoras a acreditar que aquilo era uma deturpação do trabalho do âncora. 


Ele, no entanto, se justificava dizendo que “a audiência brasileira de televisão é muito mais carente desse tipo de informação, da entrevista e do comentário do que a opinião pública norte-americana”. (Rezende, 2000, p. 126-27)

Curso de produção de vídeo
Produção e direção de televisão e vídeo

Apesar de contar com excelentes profissionais, o SBT não havia se encontrado no telejornalismo até criar o Aqui Agora, telejornal popularesco exibido nos fins de tarde, baseado no programa homônimo exibido pela TV Tupi. Foi o primeiro a usar a câmera na mão ao gravar matérias e o gerador de caracteres para sobrepor manchetes escandalosas às imagens. Seu grande foco eram as reportagens policiais, especialmente sobre assassinatos e crimes.

Devido à imagem negativa que o SBT adquiriu junto aos telespectadores e aos críticos de televisão, em 1988 houve uma reformulação do departamento de jornalismo da emissora, com o intuito de trazer novamente credibilidade e audiência, e foram contratados importantes nomes do jornalismo, como Marcos Wilson e Luís Fernando Emediato, do jornal O Estado de S. Paulo, e Boris Casoy, então editor-chefe da Folha de S.Paulo, para ser editor e âncora do Telejornal Brasil. Boris Casoy se consagrou como âncora, fazendo comentários e dando sua opinião sobre os acontecimentos, e o TJ Brasil atraiu publicidade e conquistou a audiência. (Rezende, 2000)

Abertura do Aqui Agora

Anos 1990 — A segmentação dos conteúdos e dos formatos


Com a chegada das TVs por assinatura e UHF, a disputa pela audiência tornou-se mais acirrada. Houve uma segmentação dos conteúdos e formatos com a criação de emissoras de notícias 24 horas, como a Globo News e a Band News. Algumas das emissoras abertas passaram a investir mais no telejornalismo.


Além do destaque dado à figura do âncora, o telejornalismo dessa década foi marcado pelo estímulo de coberturas externas, pela profissionalização, pela qualidade técnica e também pelo fato de os telejornais passarem a se abrir mais para o diálogo com os telespectadores, seja por meio de ligações, de cartas, seja pela visita do telespectador às emissoras dos telejornais, como era o caso do Aqui Agora. Como afirma Veloso (1998, p. 10), “a década de 1990 é marcada pelo jornalismo "ao vivo", a partir da cobertura da Guerra do Golfo, em 1991”.


Em 1995, a Rede Record lançou um de seus telejornais mais polêmicos, o Cidade Alerta, semelhante ao Aqui Agora, priorizando as notícias policiais e o sensacionalismo. 


A Globo News, primeira emissora de notícias 24 horas do Brasil, via cabo, foi inaugurada em outubro desse ano. Uma importante mudança técnica ocorrida na emissora foi a colocação do controle do teleprompter próximo ao apresentador, por meio de um pedal escondido atrás da bancada.


Em 15 de novembro de 1999, a concessão da Rede Manchete passou para a Rede TV. O primeiro jornal exibido foi o Notícias do Brasil, e foram sendo criados outros programas jornalísticos, como o Jornal da TV, o TV Economia, o Rede TV News, entre outros.

Anos 2000 — Telejornalismo na era digital


A BandNews foi inaugurada em 2001, pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação. Exibe jornais 24 horas por dia utilizando a estrutura da rede de emissoras de rádio e televisão do grupo.

A ALLTV, criada em 2002 pelo jornalista Alberto Luchetti Neto, é a primeira TV da internet, não só do Brasil como do mundo. Utiliza a tecnologia da televisão somada à versatilidade da internet e transmite uma programação baseada em variedades, entretenimento, serviço e informação. Os apresentadores interagem com o computador e respondem, em tempo real, a mensagens escritas ou faladas. Se o usuário possuir uma webcam, pode participar da programação (Joly, 2005).


Com o avanço da tecnologia, a partir da década de 1990 e principalmente na primeira década do ano 2000, houve considerável mudança no telejornalismo. A televisão, com a possibilidade do digital, passou a estar inserida no processo de modernização e evolução dos meios de comunicação, pois, como afirmam os autores Becker e Montez, “como qualquer outra mídia ou veículo de comunicação, a TV também está envolvida em um constante processo de evolução e adaptação às novas necessidades sociais” (2004, p. 25), e hoje passa por diversas mudanças, pois a transmissão televisiva analógica está, aos poucos, sendo substituída pela digital.


As emissoras, por meio da versão digital de seus telejornais, conseguem ter maior diálogo com os telespectadores, oferecendo a eles a oportunidade de rever reportagens e de se aprofundar em algum assunto por meio de chats, e-mails e newsletters. A convocação do telespectador, como demonstra Piccinin (2007, pp. 12-13), também se torna uma preocupação das emissoras, por conta da tendência do jornalismo cidadão ou jornalismo open source, que busca despertar na audiência a ideia de participação na construção das notícias.


Foi possível observar uma crescente demanda das pessoas em busca de programas que pudessem participar mais. As grandes emissoras abertas do país oferecem aos telespectadores espaços de interação como os tradicionais “Fale conosco”, além de acompanhamento dos programas pelas redes sociais, envio de sugestões de pautas, denúncias, entre outros serviços.


O telejornalismo tem evoluído muito nos últimos anos, em qualidade técnica, formato, linguagem, reportagens e, é claro, o mesmo tem ocorrido com seus apresentadores e âncoras, que, de simples narradores de imagens, passaram a verdadeiras estrelas da televisão brasileira. 


Ele vem ganhando mais mobilidade com o uso de helicópteros, motolink — moto com micro-ondas com enlace terrestre ou fazendo ponte com helicóptero ou com satélite — e com o mochilink, em que a transmissão é feita por redes disponíveis na região, como a de celulares 3G, Wi-Fi, etc. Vem ganhando também mais qualidade de som e de imagem com o padrão de alta definição (HDTV). 

O Telejornalismo no Brasil

Bibiografia

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