Entenda a linguagem da televisão e do cinema (1)

Ricardo Pizzotti

O vídeo utiliza técnicas semelhantes às do cinema. 

 

Na literatura, o escritor se expressa por um grupo de palavras que formam frases, orações e períodos. A expressão na escrita se dá por meio da sintaxe, do conjunto de regras para posição ou ordem das palavras na estrutura da frase. No cinema, a sintaxe ocorre por meio de seus elementos básicos: planos, movimentos de câmera, angulação e montagem.

 

Espaço fílmico

Na montagem dos diversos fragmentos que compõem uma cena, um espaço e um ambiente novos são criados. O espectador tem a impressão de que todas as tomadas reunidas, mesmo feitas em horários e lugares diferentes, constituem uma ação unitária.

 

A montagem cria um espaço novo, inexistente na realidade, mas real para o espectador.

 

Podemos dividir o espaço fílmico em dois: geográfico, que é utilizado para situar a ação, e dramático, para localizar e ambientar a psicologia das personagens e das situações, recurso muito utilizado para enfatizar ideias ou sentimentos. 

 

Stephen Heath explica que o cinema constrói o “espaço de representação” por meio de três movimentos distintos:

 

1. Movimento das personagens: destaca o espaço por meio do deslocamento das personagens dentro do espaço fílmico. 

2. Movimento da câmera: frequentemente comparado à “mobilidade do olho” porque parece executar os movimentos da cabeça regulando a visão do espaço.  

3. Movimento de uma tomada para outra: dimensiona o espaço estruturando-o por meio da edição e da montagem que representam a “passagem” de um espaço para outro no tempo.

 

Tempo fílmico

O tempo no cinema e no vídeo é diferente do tempo real. Ele depende da organização de imagens e sons. Trata-se de um tempo variável, não necessariamente linear, que pode ser acelerado ou invertido. 

 

São formas de uso do tempo:

 

  • Adequação (tempo real=tempo fílmico): o tempo da narrativa e o da história são praticamente iguais. Exemplo: gravação integral de um debate na televisão.

 

  • Condensação, sumário ou resumido (tempo real > tempo fílmico): muita ação em pouco tempo. A duração da narrativa (a cinematográfica é em torno de uma hora e meia) é inferior à duração da história. Exemplo: o dia de um executivo, da entrada até a saída do escritório, registrado em três minutos. 

 

  • Distensão, dilatação (tempo real < tempo fílmico): duração real de quinze segundos, duração fílmica de dez minutos. A duração da narrativa é superior à da história. Exemplo: dentro da sala de aula, uma criança imagina brincar com os outros lá fora ao mesmo tempo em que assiste à aula.

 

  • Tempo psicológico: uma série de planos com pouca ação que aumenta a impressão da duração do filme, ou uma sucessão de planos rápidos com coisas de grande interesse. O primeiro caso é utilizado em filmes psicológicos e o segundo, em filmes de ação. 

 

  • Omissão: eliminação de elementos narrativos ou descritivos de uma história, de tal maneira que, apesar de suprimidos, há informações suficientes do acontecido.

 

  • Continuidade: a história é contada na mesma ordem em que os fatos acontecem na vida real. Os planos são dispostos uns após os outros em ordem lógica e cronológica.

 

  • Simultaneidade: duas ou mais sequências são abordadas ao mesmo tempo, intercalando as cenas pertencentes a cada uma, de modo alternado, a fim de criar uma significação pelo seu confronto.

 

  • Flashback, cutback ou switchback: a ordem cronológica não é respeitada e existem um ou vários regressos ao passado. Pode-se também introduzir um acontecimento futuro no presente (flash forward). Normalmente usado quando uma personagem recorda ou pensa alguma coisa.

 

  • Elipse: omissão voluntária de um fragmento da história, isto é, eventos que se supõe ocorrer, embora não sejam mostrados. Um exemplo de elipse é a cena do filme 2001- Uma odisseia no espaço (1968), de Stanley Kubrick, quando o macaco, depois de vencer uma batalha, lança um osso para o alto, comemorando a vitória. A câmera focaliza, então, a imagem e na sequência há um corte. No mesmo ângulo entra uma nave espacial viajando pelo espaço. Assim, é criada uma elipse de milênios de evolução, sem que para isso seja necessário observar cada momento do processo evolutivo

2017 - 2020 © Ricardo Pizzotti