Cenografia para TV

Por Keller da Veiga*

Publicado na Revista SET

O propósito do trabalho do cenógrafo de televisão é conceber, projetar e montar o cenário de gravação, ou seja, criar e viabilizar tecnicamente a construção e tratamento do espaço cênico em estúdio ou locação.

 

O cenário é concebido de modo a atender à solicitação de uma sinopse,

adequando-se a um enredo e a um – ou vários – personagens. É preciso que o cenário seja fiel e esteja enraizado na história que está sendo contada e ao personagem que acolhe.  Esta é a função primordial do cenógrafo: criar uma ambientação espacial, ou uma atmosfera cênica, que permita aos atores, aos diretores e às equipes técnicas que interagem ali sua melhor performance. O cenário deve estar afinado a um conceito formal/plástico/estético que é estabelecido em conjunto com os autores e diretores.

 

Artisticamente o cenário deve não só permitir a performance dramática do ator, mas também inspirá-lo e servir de apoio e referência para sua atuação. O cenário deve deixá-lo seguro e confortável. Jamais deve tolhê-lo. Ao diretor, o cenário deve permitir facilidade de decupagem e liberdade para criar as dinâmicas de cena.

 

Tecnicamente o cenário deve atender a múltiplos fatores de produção, de operações de engenharia, infraestrutura e segurança e de gerenciamento industrial. Quanto à produção, o cenário deve estar subordinado a vários parâmetros: encaixar-se em um crivo de orçamento (trabalhamos com um orçamento fechado e os cenários, à medida que vão sendo projetados devem se ater ao orçamento previsto para ele). É comum em televisão, principalmente nas novelas e seriados, pela grande quantidade de cenários, que se faça um jogo, equilibrando a balança de custos de cenários: tira-se de um para alimentar um outro que precisou.

 

Também quanto à produção o cenário deve viabilizar o roteiro de gravação, possuindo dimensões e aspectos construtivos que facilitem e agilizem sua montagem em estúdio ou a montagem em externa. O roteiro de gravação diário, elaborado pela coordenação de produção é sagrado e todos os cenários previstos devem estar bem posicionados no estúdio e entregues na hora certa.

 

Uma das características de cenários de estúdio, principalmente os maiores, é a possibilidade de segmentá-los, montando apenas trechos imprescindíveis em caso de necessidade, falta de espaço no estúdio, por exemplo, isto em geral é combinado previamente com a direção. Quanto ao gerenciamento industrial, o cenário deve atender aos quesitos de viabilidade de construção, sendo projetado, desenvolvido e detalhado pelo cenógrafo e sua equipe de forma a que, respeitado o orçamento, ele possa ser construído sem que venha a apresentar problemas estruturais ou de acabamento no futuro. Cenários complexos, que implicam em alto grau de acabamento, que possuam mais de um pavimento e tetos iluminados são cada vez mais comuns, em função da alta definição e sofisticação dos equipamentos de gravação. Por isso devem ser analisados exaustivamente junto ao gerente de Operações Cenográficas ou Produtor de Cenografia.

 

Um aspecto importante e complexo do gerenciamento de cenários de televisão diz respeito à sua desmontagem, transporte e armazenagem. Após cada dia de gravação os cenários devem ser desmontados e suas peças de decoração, que a gente chama de contra regra leve e pesada, adereços e móveis, e maquinária, peças estruturais, paredes, pisos, escadas, tetos, acondicionadas, transportadas e armazenadas, aguardando a próxima montagem.

 

Em uma novela chega-se a número de 180 a 200 ambiente, às vezes mais. Isto representa uma quantidade formidável de peças que devem ser absolutamente controladas no espaço, onde ela se encontra a cada momento, e no tempo, ela precisa estar no estúdio no momento exato para montagem, deve ser avaliada a complexidade e duração de seu deslocamento, e sua integridade física: ela deve estar, por uma questão de continuidade - com o mesmo aspecto com que deixou o estúdio.  Isto vale tanto para o cinzeiro quanto para o piano ou para o elevador.

 

Existem espaços diferenciados para armazenagem de maquinária e contrarregra. Toda a logística das operações de armazenagem e transporte das peças cenográficas é feita pela Divisão Industrial, através dos gerentes de operação, supervisores de contrarregra e acervo, almoxarifes e cenotécnicos.

 

De forma a atender às equipes de engenharia, os cenários de estúdio devem cumprir as seguintes exigências: estar posicionados no estúdio de forma a permitir distâncias razoáveis entre as bocas de cena; permitir distâncias razoáveis para iluminação dos interiores através de janela e aberturas laterais e de fundos e também para os fundos fotográficos, plotados ou inseridos em chroma key por processos de pós- produção.

 

Quanto às equipes de infraestrutura e segurança, os cenários devem atender às normas de solidez de construção, uso de materiais resistentes e antiinflamáveis, instalações elétricas e hidráulicas protegidas e seguras. Os tecidos (cortinas e forrações) devem ser ignifugados. Além disto, o estúdio deve ser ocupado de forma a permitir o acesso fácil às saídas em caso de emergência.

 

Cabe também à Divisão Industrial a administração da Fábrica de Cenários, onde estes são construídos e montados. Esta Fábrica é composta por diversos setores que compõem as equipes de apoio e suporte à cenografia: pintura artística, pintura em estufa, escultura e adereços, acrílico, forração e estofamento, eletricidade e acervos de moveis e adereços.

 

À Divisão Industrial compete também o departamento de construção de Cidades Cenográficas, cuja importância cresce cada vez mais em função das dificuldades crescentes para se gravar em locação, principalmente nos grandes centros urbanos. As técnicas de construção de cidades cenográficas têm se aprimorado constantemente e os cenógrafos contam hoje com uma gama de recursos, técnicas de backlot, inserção de imagem, materiais construtivos leves, resistentes e de excelente resultado visual como acetatos plotados, recortes eletrônicos em MDF e metal, impressões em relevo. Além de elementos estruturais recicláveis, leves e ecologicamente corretos, como gesso, metal e material sintético, minimizando o uso de madeira. O uso de telhas de papel reciclado já é corriqueiro. Isto tem possibilitado o incremento da utilização dos interiores de cenários em cidades cenográficas, o que alivia muito o custo e agiliza as operações de produção.

 

O cenógrafo de televisão pode estar aplicado em um ou mais programas, dependendo de sua disponibilidade de tempo e do grau de complexidade de cada produção. No esquema normal de programação de televisão – em uma novela, por exemplo – atua um cenógrafo titular que participa de todo o processo de criação e produção desde o seu início. As primeiras reuniões ocorrem com os diretores e autores e as subsequentes com os demais cabeças de equipe: gerente e coordenador de produção, diretor de fotografia e produção de arte, caracterização, figurino, supervisor de engenharia e efeitos especiais.

 

Estabelecidos os conceitos e a linha geral dos trabalhos cenográficos é montada a equipe de trabalho, variável em função do programa, número este que vai se alterando com o percurso do programa em função das diferentes etapas de trabalho e das diferentes solicitações que aparecem. Inicialmente são elaborados croquis e estudos dos diversos cenários previstos em sinopse. Aprovados os cenários, estes são então apresentados em um workshop a toda a equipe técnica e a partir daí entram em fase de desenvolvimento e detalhamento, depois são orçados e aprovados para construção.

 

São então pré-montados e seu conjunto aprovado in loco pela direção. São ostensivamente fotografados e armazenados e, na data prevista, montados no estúdio.

 

*Keller da Veiga é cenógrafo do Projac, com trabalhos em diversas novelas e minisséries da TV Globo 

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