Cenografia no telejornal

A importância do cenário na composição do produto televisivo

 

Bruno Carlos Batista Ribeiro

Trabalho apresentado à Faculdade de Tecnologia e Ciências Sociais Aplicadas - FATECS

Cenografia

 

O termo cenografia (skenographi, que é composto de skené, cena, e graphein, (escrever, desenhar, pintar, colorir) se encontra nos textos gregos — “A poética” de Aristóteles, por exemplo. Servia para caracterizar certos embelezamentos da skené. Posteriormente é encontrado nos textos em latim (De architectura, de Vitruvio): scenographia. Era usado para definir no desenho uma noção de profundidade. Os textos de Vitruvio foram traduzidos, e o termo cenografia passou a ser usado para designar os traços em perspectiva e notadamente os traços em perspectiva do cenário no espetáculo teatral.

 

Mesmo com o passar dos anos o termo cenografia ainda permanece caracterizado como uma forma de expressão do profissional, o cenógrafo, que consegue desenhar, colorir, pintar, através dos cenários, um ambiente onde personagens de uma determinada produção, seja ela teatral ou televisiva, possam viver e praticar as suas ações. 

 

A cenografia sendo basicamente imagem, e puramente visual, encontra por meio da seleção de fotografias em diversos ângulos de enquadramento as condições ideais para uma demonstração do que se considera realizar uma leitura de produção.

 

A criação do cenógrafo, portanto, pode ser considerada uma criação artística, ou também uma criação publicitária, dependendo, claro, do briefing recebido do diretor. A questão da criação dos cenários pelo cenógrafo inicia quando é fornecida a sinopse. Nesse momento, o cenógrafo é quem define que tipo de leitura vai fazer. Uma análise que buscasse apenas valorizar a funcionalidade dos cenários seria equivocada, afinal, existe uma preocupação artística na cenografia.

 

Interpretar segundo uma ótica atual temas com três mil anos de vida, aplicar a esses temas a visão somatória de todas as teorias atuais decantadas num único ponto de vista, tentar se colocar no espírito de um tempo passado para recriar, modernizando-o, um modelo de vida que não foi nosso, preocupar-se especificamente com o lado técnico do espetáculo em função das áreas disponíveis, buscar espaços mais do que formas, a cor ou sua ausência, servi-se das tecnologias as mais arrojadas (admitindo que possam ser conseguidas aqui) ou optar definitivamente por uma pobreza franciscana fim de valorizar a palavra que ela ressoe num clima cristalino que não pertube? (RATTO, 1999,pág. 22)

 

Ainda assim, mesmo sem fixar o olhar nos elementos cenográficos, pode-se afirmar que há um primeiro grau de significação na cenografia que não foge à percepção do mais desatento espectador: o reconhecimento do cenário como espaço natural ou como espaço construído. Diante da tela, o telespectador reconhece que alguns ambientes são construídos, produzidos única e exclusivamente para aquele momento, para aquele programa. São ambientes fictícios, e que outros são ambientes reais, isto é, têm existência própria independentemente de sua utilização em um programa televisivo.

 

Em qualquer parte do mundo esta linguagem cenográfica consegue transferir para seus cenógrafos, uma compreensão individualizada. Assim, um cenário produzido no Brasil, para atender a uma determinada produção nacional, poderá ter uma interpretação e compreensão diferenciada na Índia ou no Japão. Isto se deve talvez pela forma como este cenário foi construído, seja nos materiais usados, seja no referencial dos cenógrafos envolvidos na produção, ou ainda, no estilo de detalhamentos.

 

O cenário cria um universo de imaginação na cabeça do telespectador. No caso de cenários de teledramaturgia ou programas infantis, vemos que essa imaginação é maior, mas com a informalidade passada pelos telejornais, essa imaginação através dos cenários não deixa de existir, acontece em uma escala bem menor do que dos outros exemplos, mas ela não é desconsiderada. Portanto a aplicação correta das cores, irá dar uma nova percepção visual ao cenário. O cenário é um elemento primordial na construção da narrativa de um programa por mostrar visualmente o espaço em que acontecem as ações, tornando-se uma memória viva e auxiliando-as na associação das propostas iniciais dos idealizadores do produto.

 

Na televisão o espaço utilizado para a construção dos cenários nem sempre confere à proporção vista pela tela do aparelho de TV, suas dimensões e estruturas são na maioria das vezes bem menores do que se imagina. O que nos parece um imenso cenário de grande profundidade através da tela da TV, visto diretamente tem suas reduções e adaptações de acordo com as dimensões físicas do estúdio em que será montado.

 

A cenografia da televisão também possui esta capacidade de mutação, sendo observada de diversas formas, e em cada época o conceito cenográfico tem o seu significado alterado. Décio Pignatari considera que a televisão é um veículo de veículos, cuja linguagem “combina todas as linguagens, numa produção seriada e industrializada da informação e do entretenimento” (1984 p.14). É um grande rio com grandes afluentes. Os cenários estão ligados a este rio (o enredo) formando um elemento fundamental na trama. A mensagem televisiva é influenciada pela linguagem do desenho, da fotografia, do cinema, da literatura e do jornalismo, do teatro, do rádio, etc. O sistema apresenta-se, então, como um campo apropriado para a aplicação das teorias semióticas com a ajuda dos cenários.

 

Para que se possa observar um signo cenográfico, ou qualquer outro tipo de signo da televisão, como componente significante, é preciso ter em mente que o texto televisivo é uma unidade comunicativa complexa em que leva em conta a análise de elementos complementares distintos.

 

Como devemos considerar preferencialmente o olhar do telespectador, quando observamos os cenários expostos nos programas televisivos, como o público os percebe em sua casa, devemos ter em mente que esta percepção não é, e nem deve ser, completa, já que o cenário se coloca na cena.

 

No caso dos telejornais, o cenário deve ser construído para simular uma localidade, seja ela uma sala de visitas, um escritório, ou um lugar planejado para que o jornal possa acontecer com o cenário agregando valor visual ao programa. 

 

A capacidade de transmitir a informação com a plasticidade, a escolha de cores unidas à iluminação e aos figurinos é espantosa. Não há quem não seja influenciado por um instante sequer, neste mundo “ficcional” dos cenários televisivos, atraindo vários anunciantes como forma de product placement. Em seu livro, Alfredo Eurico Pereira Júnior, Célia Mota e Flavio Porcello dizem o seguinte a respeito disso:

 

...é um agente político e cultural importante e uma das atividades levadas com seriedade no país com características singulares. Prova disso, é o investimento de quase 60% dos recursos publicitários investidos, totalizando mais de 4 bilhões de reais, em busca de uma efetiva conquista de audiência quantitativa.( JUNIOR / MOTA / PORCELLO, 2006 P.68)

 

Com esta citação vemos que a televisão é o veiculo que mais atrai investimentos publicitários, cerca de 62% do que é investido em veiculação, e os telejornais não ficam de fora disso, também atraem patrocinadores e anunciantes.

 

Cenografia no telejornal

 

A impossibilidade de transferir um estúdio para dentro do trabalho escrito, oferecer as condições necessárias para expressar muito do que ocorre ao vivo nos telejornais demonstra a dificuldade do trabalho cenográfico nas produções desse tipo. O cenário é um importante elemento dos que compõem o telejornal, desde o seu início houve sempre uma preocupação e busca por novidades para sua composição.

 

Os telejornais começaram a receber influências das tecnologias digitais, gerando novas experiências audiovisuais. No entanto, na América Latina e no Brasil, essas novas tecnologias e mediações tem multiplicado as ofertas midiáticas...(JUNIOR/ PORCELLO/ MOTA 2006 P.68)

 

Hans Donner foi um grande colaborador para cenografia do telejornal. A partir dele o conceito de cenário chapado ao fundo com a logo do jornal acabou. Em sua criação para o Jornal Nacional ele explica: "Minha inspiração para criar o cenário do Jornal Nacional foi resultado da fascinação que tenho por espaço. Dar a ilusão de uma grande dimensão sempre me fascinou”.

 

A composição dos cenários é um item relevante na estruturação do telejornal. Seu papel é fundamental na estética visual. Mangueneau(2006 p. 67-68) define que cenografia é “a cena de fala que o discurso pressupõe para poder ser enunciado e que, por sua vez, deve validar através da sua própria enunciação: qualquer discurso, por seu próprio desenvolvimento, pretende instituir a situação de enunciação que o torna pertinente.

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